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sexta-feira, setembro 10, 2010

O ninho do tigre

1) A velha entra na sala mancando, a perna carcomida exalando o cheiro de sempre, cheiro de pronto-socorro, de pedaço que morreu e não avisou o dono. Modelo completo: diabetes, hipertensão, tabagismo, obesidade, colesterol, e "só dois dedinhos de cachaça no almoço" por 50 anos. -Dói a perna há 6 meses, não tem um remédio? - Mão na testa, olho no relógio, faltam 10 horas de plantão. O dia-a-dia de hospital é isso, uma impotência, um eterno “sinto muito, seu corpo está em frangalhos e não temos o que fazer”. Fico me sentindo um homeopata, porém honesto. Pra que serve medicina então?

O que salva vidas não é o atendimento médico de urgência. Aquilo é bacia das almas, quebra galho pra meia dúzia de mal-aventurados, pra quem muitas vezes não há o que fazer, realmente. O que não se pode subestimar é o valor da ciência de saúde humana, nisto incluindo médicos, químicos, físicos, etc. Esta ciência sim mudou completamente nosso modo e expectativa de vida, norteando os padrões de habitação, alimentação, higiene e atividade física, além de intervenções diretas, como as vacinações e programas de saúde preventiva. Mas ainda há uma barreira entre a realidade dos meios de saúde e a concepção popular do médico e do hospital. É isso que precisa mudar. A senhora-tigre que chegou andando na primeira linha deveria ter uma noção geral de como as doenças crônicas que enumerei vão estragar seu corpo sem que ela sinta quase nada, e depois do estrago nenhum remedinho irá de fato remediar a situação.

A saúde é mal distribuída, sim. Mas mesmo com um batalhão de médicos não se poderia seguir esperando o povo ficar doente pra vir nos 15 minutos de consultório ter uma formação de opinião sobre saúde. Essa história de CONSULTE SEU MÉDICO pra tudo gera um misticismo sobre doenças e remédios, como se fosse só parar na oficina e seu corpo sair novinho, pronto pra mais 100 anos de podridão. Talvez um dia.

Por enquanto, é necessário conscientizar todo mundo de que VIDA se deve levar pra evitar aparecimento e complicações de doenças comuns. Qualquer um sabe que cigarro faz mal, mas esta idéia vaga não dá liberdade de escolha real. Dá câncer, mas quase ninguem sabe o que é câncer. Saber que mata não é o bastante, se vamos morrer de uma forma ou de outra. Além disso, morrer é a parte mais fácil dessas mazelas todas, o problema é o caminho até lá. Tigres sofrem um bocado.

2) Nisso de conscientizar, o médico tem as mãos atadas. Além de ter pouquíssimo tempo no amontoado de pacientes que tem de atender, seja por lucro ou por demanda local, ele lida com adultos, o que estraga de vez o resultado. Adultos não se convencem de nada. Sou o mais cabeça-aberta dos que conheço e demorei quase 5 anos pra virar socialista, mesmo com doses diárias de injustiça social aonde quer que eu fosse em São Paulo e amigos tentando me explicar. Sim, acredito que adultos podem mudar radicalmente de opinião, mas a um custo de tempo e retórica totalmente inviáveis em larga escala. Quem tem que aprender sobre o mundo são as crianças.

E novamente não pelo médico. Quem tem tempo de estabelecer um canal de comunicação de confiança com os pequenos é o professor, o ambiente escolar. Entendo que o currículo escolar tem seus usos, porém é totalmente desligado da vida real. Eu gosto de saber distinguir distância, velocidade relativa e aceleração quando estou num veículo. Mas a escola deveria ensinar conteúdo mais pragmático, como cuidar da própria saúde, política atual e seus motivos, legislação, culinária, ensinar a realidade da cidade e do campo, formar um adulto. Seriam coisas muito mais úteis agora, do que reconhecer o filo da água-viva (por mais interessante que seja)... Acaba sendo uma questão mais ampla, da função social da escola. Enquanto a escola está ensinando terciarismos, quem “educa”(e tortamente) pra vida é o desenho animado, o rambo, o DATENA!

Há um cuidado em não falar muito de realidade com a criança, pois é jovem e inocente. De que adianta formar um bocó de 18 anos que em 5 minutos de realidade muda todos seus conceitos de vida? A criança precisa ver que tem gente passando fome, que o dinheiro acaba, que doença e cigarro mata com sofrimento, saber quem planta a comida e quem queima a comida pra subir o preço. Quase todos adultos de hoje teriam de ser re-alfabetizados num sistema desse. Não é nem questão de melhorar a saúde da população, estamos falando da saúde da sociedade mesmo.

sexta-feira, junho 11, 2010

Nós que aqui estamos

Após mais uma tentativa de ler só material politico, me peguei lendo uma aventura de ficção nestas férias (A Estilha de Cristal). Ao começar tinha já o remorso de não estar consumindo nada util, nada que construisse minha argumentação para um mundo melhor. Foi uma aventura fantástica, com muito "near death experience" e sangue rolando. A narrativa é tão absorvente que o leitor se sente realmente a beira do fim em mais de uma ocasião. Tendo você escapado, milhares de companheiros não tiveram a mesma sorte, e tombaram, como diria o autor. Isso me fez colocar em perspectiva mais uma vez a fragalidade que é nossa vida, como tentamos fugir dessa realidade a todo custo, e como fazemos isso errado.
Morre-se facinho. Não se pode esquecer que mesmo com todas as politicas publicas de saúde, com repressão à violencia, airbags, antibioticos ou SAMU, mesmo com toda essa máquina de preservação, a vida se vai sem aviso. Ja vi vizinho que morreu de meningite em 1 dia, professor com cancer em meses. O noticiário (pare de assistí-los) sempre lembra: morreram tantos sem mais nem menos. Mas não queremos pensar nisso. Qualquer filme de drama nos assombra com ameaças de morte, é terrivel.
Acho que a opinião geral oscila entre não querer lidar com isso, seguindo as demais necessidades da vida (fome, contas a pagar), e lembrar da morte, momento apos o qual se passa algumas horas acreditando no Carpe Diem. De uma forma ou de outra, se fingindo de imortal ou desesperado, cada pessoa se individualiza, valorizando sua própria existência como se fosse tudo que lhe interessasse. Isso sim é muito triste. Pois ao erguer uma barreira entre sua vida e o mundo, se perde o mundo.
Ateu ou misticista, você deve perceber que tudo que fazemos e sabemos é graças à coletividade, intelectual e de ação, e que após nossa morte é este coletivo que permanece. Então que sentido há em lutar contra o fim por meio da individualidade, se esta ja o tem por certo? Não, para o resto do mundo não faz qualquer diferença se você aproveitou ou não o dia. Só sobrevive o que você deixa nos outros, constrói para os outros. Ao contrario da busca individual, que só cria ansiedade e incerteza, a aceitação de nossa fragilidade leva a humildade e paz de espirito, entendendo o próximo como a parte de você que de fato sobreviverá para contar história. Talvez por isso a solidão seja tão temida quanto a morte, são a mesma coisa na pratica..
Em vez de se preocupar com o tempo que lhe resta, use suas forças para fazer a diferença nas pessoas que te cercam. Pois os dias passam num segundo, e o provavelmente o lema mais apropriado para tudo valer a pena seja outro: Carpe Mundus.

quarta-feira, outubro 31, 2007

Kids, listen to the story..

Desde friends e suas piadas sobre tudo, que não gostava de uma comédia tanto assim. Foi paixão a primeiro episódio. A história é simples: um pai contando aos filhos como conheceu a mãe, uma história que ja está na terceira temporada (passa no Brasil na FOX life acho, mas baixo em torrent). O legal é que enquanto o paizão (Ted) conta, a trama se desenrola em flashbacks e comentários que ja sabem o que vai acontecer, logística muito interessante que eu nunca tinha visto.
Junte nesse bolo um personagem fanfarrão e mulherengo, e interpretado por um ator de outro mundo, e você ja começa a ver the big picture. Neil Patrick Harris vive Barney, o ser mais engraçado do universo, e nem é um dinossauro roxo! Ele tem o ego nas estrelas, tem uma energia solteirística que eu invejo e leva a série nas costas. E muito bem. Esse trecho é do episódio novo da terceira temp, ri mointo.
O mais legal de tudo é que no final dos episódios você não sente que riu a toa, fica uma sensção boa de paixão e amizade, temas trabalhados o tempo todo, enquanto o simpático arquiteto procura sua futura esposa e vive encontros mais engraçados que os do Ross, Chandler e Joey juntos. How I met your mother. Tem que assistir!



E com essa abertura bonita que sempre cai mto bem!